Deixei-me vencer, ao ler este conto, não só pela poesia que o envolve, mas sobretudo pela esperança de que, na igreja/comunidade fraterna, o Cristianismo não morrerá nunca. Porque "pobres sempre os tereis convosco".
Não quero alargar-me mais na minha reflexão. Faz bem ler este conto!
Um abraço
A.M.
Sávio CORINALDESI
Irmã Olinda tinha chegado fazia poucos dias do Brasil para completar seus estudos em Roma e preparar-se para uma das missões da Congregação. Na tarde da Quinta Feira Santa, a superiora perguntou à Irmã Teresa se poderia acompanhar a jovem brasileira em São Pedro, onde tinham conseguido dois ingressos para a Missa do Lava-pés.
A basílica resplandecia de luzes e a irmãzinha estava deslumbrada com tantas maravilhas. O lugar reservado a elas permitia uma magnífica visão do conjunto. O papa presidia, rodeado de cardeais, arcebispos, bispos e uma multidão de sacerdotes, tudo num oceano de cores e de sons que a deixavam assombrada. Lembrou o carnaval do Rio que a televisão levava fielmente, todos os anos, até o coração da mata amazônica onde tinha nascido. Envergonhou-se logo desse pensamento desrespeitoso e procurou concentrar-se no solene rito que se desenvolvia debaixo de seus olhos. Nos primeiros bancos e nos lugares a eles reservados, os membros do Corpo Diplomático e da nobreza romana ostentavam seus trajes de cerimônia, austeros os dos homens, elegantíssimos os das mulheres. Em suas cabines, discretos, mas em plena atividade, os operadores de TV captavam e enviavam para o mundo as imagens que ela observava com seus próprios olhos.
Procurou acompanhar a homilia do papa, mas não conseguiu por muito tempo: conhecia já bastante a língua italiana, mas a pregação lhe resultava difícil.
Lembrou a última Semana Santa passada em sua comunidade, antes de entrar no noviciado. Tinha apenas vinte anos, mas era a líder incontestada do Cabresto, uma comunidade rural distante uns 30 km da sede do município. Não tinha nascido ali, mas ali tinha crescido desde menina. Tinha freqüentado a pobre escola do lugar, com uma única professora que ensinava o pouco que sabia a todos os garotos e garotas dos 6 aos 12 anos. Tinha-se distinguido tanto que, quando a velha professora se mudou para a cidade, com a família, os pais do Cabresto tinham pedido ao prefeito que colocasse ela no lugar. Seu nome de batismo era Olinda, mas todos a tinham sempre chamado Lindinha e também quando se tornou professora, pais e crianças continuaram tratando-a de Lindinha.
Nesse tempo o vigário veio celebrar a Missa no Cabresto. O fazia todos os meses, quando podia. Quis saber se alguém poderia cuidar do catecismo. Todos concordaram que ninguém poderia fazê-lo melhor que ela. Muito jovem, franzina, com um sorriso tímido e a voz doce, era respeitada naturalmente por todos. Participava na paróquia dos cursos de catequese e de formação das lideranças, gostava de ler e procurava manter-se informada o tanto que o isolamento da floresta lhe permitia. O único que não a suportava era o Dr. Vitalino, dono de uma grande fazenda no Cabresto.
- Tavico, junta três ou quatro colegas e tragam aqui a senhora Raquel que não pode caminhar.
Agora estavam todos. Isto é, quase todos. O Dr. Vitalino e sua família tinham viajado no sábado para ir passar a Semana Santa em Salinas, a praia da gente fina da capital.
A celebração saiu bonita mesmo. A Lindinha (quero dizer, Irmã Olinda) sente a saudade apertar sua garganta lembrando aquela noite.
Nonato tinha sido particularmente bem sucedido comentando o Evangelho da instituição da Eucaristia, recordando a luta de dois anos antes e tinha-se emocionado relembrando gestos de solidariedade que, a partir de então, transformara o Cabresto numa verdadeira comunidade.
No lava-pés as crianças tinham lavado os pés dos pais, que receberam a homenagem com a maior seriedade. Durante o ofertório foi feita a coleta, cuja arrecadação seria destinada ao Sr. Feitosa, que estava em Belém, ao lado da mulher recém operada. Terminado o culto, os objetos litúrgicos e as toalhas foram guardados no armário e o altar voltou a ser a mesa sobre a qual as mães foram colocando – não sem uma pontinha de orgulho – sua respectiva “janta”.
- “Comeremos todos juntos o que cada uma tiver trazido” era o lema de suas refeições comunitárias.
A novidade daquela noite foi o conteúdo da bandeja da senhora Anália, matriarca da família Neves, recém chegada no Cabresto, de Minas Gerais. Poucos dos presentes conheciam o pão de queijo mineiro, mas a novidade teve sucesso total.
Aí o velho Neves contou como a Semana Santa é celebrada na sua terra. Mais tarde as gêmeas da família Sívori, descendentes de italianos e procedentes do Rio Grande do Sul, cantaram uma canção que os jovens de lá usam enquanto passam, em grupos, de casa em casa para recolher ovos que, devidamente pintados e cozidos, serão comidos após a celebração da noite de Sábado Santo.
A única nota triste foi provocada por ela, Lindinha.
- Como vocês sabem, esta é a última Semana Santa que passo com vocês. No próximo mês deixarei o Cabresto para entrar na casa de formação das Missionárias de Maria.
- Porque vás embora? Es tão preciosa aqui! Ou nós não somos filhos de Deus? - São, sim, senhor Sívori. Veja, acabamos de celebrar a Última Ceia. Nos dissemos que não podemos pensar só em nós. Eu gostaria que também outras pessoas pudessem conhecer as coisas bonitas que o Senhor fez e faz para seus filhos e filhas. Vocês já o sabem.
- E a senhora, Dona Dora, vai deixar sua filha ir embora?
- Senhor Sívori, suas crianças são ainda pequenas. Mas logo vão crescer e o senhor entenderá que os filhos nós os fazemos, com a graça de Deus, mas não são nossos...
Irmã Olinda sente uma forte saudade daqueles momentos tão intensos. Mas a Irmã Teresa a sacode. Chegou o momento da comunhão.
Enquanto avança lentamente na fila, sente-se culpada pela longa distração. Quando chega a sua vez, estende a mão para receber a hóstia, mas o padre, com gesto mecânico, enfia a partícula em sua boca.
De volta ao seu lugar, a emoção das lembranças se transforma num choro suave e melancólico, que procura esconder cobrindo o rosto com as mãos.
Chegam em casa já tarde. As Irmãs que participaram da Missa na paróquia já estão dormindo. Também a Irmã Olinda se retira no seu quarto. Antes de adormecer, ouve a superiora que pergunta à Ir. Teresa:
- E então, nossa brasileirinha gostou da cerimônia?
- Acho que sim. Quando saímos de São Pedro tinha os olhos vermelhos...
- Pode apostar! Lá, no meio do mato uma cerimônia come esta, ela não ia poder nem sonhar.
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