segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Vamos a Coimbra? Vamos!!!

Depois de uma aplicada logística a cargo do Guilhoto, está tudo nos carris para que a nossa visita à Cidade dos Estudantes seja uma realidade interessante.
O Alfa Pendular das 08H00, Santa Apolónia, será o transporte confortável que nos levará até Coimbra-B, onde chegaremos pelas 09H30. Seguir-se-á uma visita a pontos interessantes da cidade e depois um almoço de convívio, em restaurante que as nossas anfitriãs, (a viúva e a filha do malogrado Catarino, entretanto falecido), nos indicarão com a maior generosidade.
A elas os nossos agradecimentos antecipados.
Esperamos que seja uma boa jornada! Até lá!

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Colaboração de um Amigo de um Amigo meu

Na sequência das turbulentas e acesas discussões do almoço de ontem, anexo um conto retirado do "site" Servicios koinonia. Os dois paradigmas de Igreja estão perfeitamente desenhados nesta pequena história brasileira. A Igreja formal, rica de arte e ouro, poderosa e imponente, fechada aos pobres e ao mundo, solenemente cantada em desconhecidas linguagens, sob lustrosas cúpulas ornamentadas a ouro e prata. No outro lado, perdida no nevoeiro da vida e do mundo, está a igreja comunidade fraterna, atenta aos mais pobres, onde os gestos realizam precisamente aquilo que significam: o pão é verdadeiramente pão e, partilhado, é verdadeiramente o Corpo de Cristo; onde o vinho é verdadeiramente vinho e, partilhado, é verdadeiramente vinho para a alegria e salvação de muitos.
Deixei-me vencer, ao ler este conto, não só pela poesia que o envolve, mas sobretudo pela esperança de que, na igreja/comunidade fraterna, o Cristianismo não morrerá nunca. Porque "pobres sempre os tereis convosco".
Não quero alargar-me mais na minha reflexão. Faz bem ler este conto!
Um abraço
A.M.


A Ceia Eucarística em São Pedro
Sávio CORINALDESI


Irmã Olinda tinha chegado fazia poucos dias do Brasil para completar seus estudos em Roma e preparar-se para uma das missões da Congregação. Na tarde da Quinta Feira Santa, a superiora perguntou à Irmã Teresa se poderia acompanhar a jovem brasileira em São Pedro, onde tinham conseguido dois ingressos para a Missa do Lava-pés.
A basílica resplandecia de luzes e a irmãzinha estava deslumbrada com tantas maravilhas. O lugar reservado a elas permitia uma magnífica visão do conjunto. O papa presidia, rodeado de cardeais, arcebispos, bispos e uma multidão de sacerdotes, tudo num oceano de cores e de sons que a deixavam assombrada. Lembrou o carnaval do Rio que a televisão levava fielmente, todos os anos, até o coração da mata amazônica onde tinha nascido. Envergonhou-se logo desse pensamento desrespeitoso e procurou concentrar-se no solene rito que se desenvolvia debaixo de seus olhos. Nos primeiros bancos e nos lugares a eles reservados, os membros do Corpo Diplomático e da nobreza romana ostentavam seus trajes de cerimônia, austeros os dos homens, elegantíssimos os das mulheres. Em suas cabines, discretos, mas em plena atividade, os operadores de TV captavam e enviavam para o mundo as imagens que ela observava com seus próprios olhos.
Procurou acompanhar a homilia do papa, mas não conseguiu por muito tempo: conhecia já bastante a língua italiana, mas a pregação lhe resultava difícil.
Lembrou a última Semana Santa passada em sua comunidade, antes de entrar no noviciado. Tinha apenas vinte anos, mas era a líder incontestada do Cabresto, uma comunidade rural distante uns 30 km da sede do município. Não tinha nascido ali, mas ali tinha crescido desde menina. Tinha freqüentado a pobre escola do lugar, com uma única professora que ensinava o pouco que sabia a todos os garotos e garotas dos 6 aos 12 anos. Tinha-se distinguido tanto que, quando a velha professora se mudou para a cidade, com a família, os pais do Cabresto tinham pedido ao prefeito que colocasse ela no lugar. Seu nome de batismo era Olinda, mas todos a tinham sempre chamado Lindinha e também quando se tornou professora, pais e crianças continuaram tratando-a de Lindinha.
Nesse tempo o vigário veio celebrar a Missa no Cabresto. O fazia todos os meses, quando podia. Quis saber se alguém poderia cuidar do catecismo. Todos concordaram que ninguém poderia fazê-lo melhor que ela. Muito jovem, franzina, com um sorriso tímido e a voz doce, era respeitada naturalmente por todos. Participava na paróquia dos cursos de catequese e de formação das lideranças, gostava de ler e procurava manter-se informada o tanto que o isolamento da floresta lhe permitia. O único que não a suportava era o Dr. Vitalino, dono de uma grande fazenda no Cabresto.
O filho da viúva Raquel trouxe uma bandeja com os doces preparados pela mãe, que, porém, não viria porque sua muleta tinha quebrado. Mas Lindinha não se conformou. Chamou um dos jovens:
- Tavico, junta três ou quatro colegas e tragam aqui a senhora Raquel que não pode caminhar.
Pouco tempo depois o grupo fazia a sua solene entrada na capela: quatro jovens seguravam uma robusta vara na qual estava amarrada a rede que trazia a senhora Raquel, radiante.
Agora estavam todos. Isto é, quase todos. O Dr. Vitalino e sua família tinham viajado no sábado para ir passar a Semana Santa em Salinas, a praia da gente fina da capital.
A celebração saiu bonita mesmo. A Lindinha (quero dizer, Irmã Olinda) sente a saudade apertar sua garganta lembrando aquela noite.
Nonato tinha sido particularmente bem sucedido comentando o Evangelho da instituição da Eucaristia, recordando a luta de dois anos antes e tinha-se emocionado relembrando gestos de solidariedade que, a partir de então, transformara o Cabresto numa verdadeira comunidade.
No lava-pés as crianças tinham lavado os pés dos pais, que receberam a homenagem com a maior seriedade. Durante o ofertório foi feita a coleta, cuja arrecadação seria destinada ao Sr. Feitosa, que estava em Belém, ao lado da mulher recém operada. Terminado o culto, os objetos litúrgicos e as toalhas foram guardados no armário e o altar voltou a ser a mesa sobre a qual as mães foram colocando – não sem uma pontinha de orgulho – sua respectiva “janta”.
- “Comeremos todos juntos o que cada uma tiver trazido” era o lema de suas refeições comunitárias.
A novidade daquela noite foi o conteúdo da bandeja da senhora Anália, matriarca da família Neves, recém chegada no Cabresto, de Minas Gerais. Poucos dos presentes conheciam o pão de queijo mineiro, mas a novidade teve sucesso total.
Aí o velho Neves contou como a Semana Santa é celebrada na sua terra. Mais tarde as gêmeas da família Sívori, descendentes de italianos e procedentes do Rio Grande do Sul, cantaram uma canção que os jovens de lá usam enquanto passam, em grupos, de casa em casa para recolher ovos que, devidamente pintados e cozidos, serão comidos após a celebração da noite de Sábado Santo.
A única nota triste foi provocada por ela, Lindinha.
- Como vocês sabem, esta é a última Semana Santa que passo com vocês. No próximo mês deixarei o Cabresto para entrar na casa de formação das Missionárias de Maria.
- Porque vás embora? Es tão preciosa aqui! Ou nós não somos filhos de Deus? - São, sim, senhor Sívori. Veja, acabamos de celebrar a Última Ceia. Nos dissemos que não podemos pensar só em nós. Eu gostaria que também outras pessoas pudessem conhecer as coisas bonitas que o Senhor fez e faz para seus filhos e filhas. Vocês já o sabem.
- E a senhora, Dona Dora, vai deixar sua filha ir embora?
- Senhor Sívori, suas crianças são ainda pequenas. Mas logo vão crescer e o senhor entenderá que os filhos nós os fazemos, com a graça de Deus, mas não são nossos...
Irmã Olinda sente uma forte saudade daqueles momentos tão intensos. Mas a Irmã Teresa a sacode. Chegou o momento da comunhão.
Enquanto avança lentamente na fila, sente-se culpada pela longa distração. Quando chega a sua vez, estende a mão para receber a hóstia, mas o padre, com gesto mecânico, enfia a partícula em sua boca.
De volta ao seu lugar, a emoção das lembranças se transforma num choro suave e melancólico, que procura esconder cobrindo o rosto com as mãos.
Chegam em casa já tarde. As Irmãs que participaram da Missa na paróquia já estão dormindo. Também a Irmã Olinda se retira no seu quarto. Antes de adormecer, ouve a superiora que pergunta à Ir. Teresa:
- E então, nossa brasileirinha gostou da cerimônia?
- Acho que sim. Quando saímos de São Pedro tinha os olhos vermelhos...
- Pode apostar! Lá, no meio do mato uma cerimônia come esta, ela não ia poder nem sonhar.
Sávio Corinaldesi
Brasil

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

30 de Setembro - Última quarta feira

Dez convivas, tantos foram os que compareceram ao encontro de ontem, no habitual almoço na Cervejaria "Baleal", à Rua da Madalena, em Lisboa.
Aqui vão já os respectivos nomes para que conste: Robalo, Jacinto Xarrama, Jacinto Latas, José Augusto Guilhoto, José Contreiras, Silva Pinto, Antonino Mendonça, Fernandes, Manuel Mata (Matita) e Noca.
O ambiente estava bom com a mesa rectangular,(3 + 3 nas laterais e 2 + 2 nas cabeceiras), permitindo uma óptima comunicação visual entre todos os comensais. Outro tanto não se puderá dizer relativamente à comunicação verbal devido à dureza dos nossos muito usados ouvidos, cuja acuidade já não tem aquela limpidez que nos caracterizava e o ambiente exigia.
Perderam-se assim alguns pormenores de conversas interessantes: recordo apenas como exemplo a produção verbal do meu principal interlocutor, o Contreiras, que bem se esforçou, mas que eu não percebi nada do que me queria dizer - ía-lhe acenando que sim para não o desiludir, desculpa Zé.
Apesar disso foi muito animado o repasto, onde predominou o polvo "à Lagareiro", uma delícia, e as conversas foram diversas e interessantes, com predomínio para a abordagem à comunicação de Cavaco Silva na noite anterior.
Ninguém teve a coragem ou condão de dizer que percebera o sentido ou mesmo o alcance de tal comunicação, sobretudo porque, dadas as circunstâncias em que foi produzida, pareceu a uns confusa e a outros inconsequente: àqueles porque se limitaram a não perceber o que o sr queria dizer na sua; a estes porque, a ser assim, só haveria duas saídas, a saber: ou o homem resignava ou corria com tão "malfadado governo". Ora nada disso aconteceu e a montanha pariu um rato, tornando tudo ainda mais confuso.
Sabemos que nada disso poderia ter acontecido, primeiro porque homem tão determinado não desiste de "salvar" a pátria e para correr com o governo teria de dissolver o Parlamento, o que seria um acto inútil e desnecessário uma vez que o povo soberano já elegeu outra configuração parlamentar.
A dada altura, a propósito do nome do Mendonça, pai do "Frei Bernardo", disse-se que "Antonino" era um nome isótico e que havia muito poucos com esse nome, mas alguém recordou existir um bispo com tal nome. Não se sabendo quem era o bispo assim chamado, lá tivemos de recorrer à nossa "episcopédia", o Robalo, que prontamente esclareceu tratar-se do bispo de Portalegre-Castelo Branco, cuja cátedra ocupa há x anos e antes fora auxiliar do bispo do Porto.
Terminado o almoço, deambulámos pela Praça da Figueira, Rua da Betesga, Rossio, São Domingos e Portas de Santo Antão, não perdendo o ponto principal de referência, a Casa do Alentejo. Embora nem lá entremos, há qualquer coisa de mítico nesta nossa relação com aquela Casa: é ali que nos encontramos e é dali que dispersamos - é como se fossemos ao Alentejo e voltássemos.
Alguns mais apressados foram aos seus destinos, mas um pequeno grupo, a que se juntou o amigo Lourenço entretanto aparecido, continuou no cavaqueio, pela Rua do Coliseu e Sociedade de Geografia, até uma cervejaria com esplanada de rua onde sentámos arraiais numa tertúlia ad hoc para abordagem de outros assuntos, tendo chegado à conclusão que é possível haver um monárquico republicano que, sendo comunista, votou no PSD. Coisas!!!...
Perspectiva-se para a próxima última quarta feira de Outubro uma ida até Coimbra, dependendo das diligências que o Guilhoto vai encetar no sentido de acomodar a logística necessária para que tudo decorra bem.
E pronto todos foram aos seus destinos, até ao fim de Outubro.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

"PODER DIVINO" e "PODER TEMPORAL"

Um Amigo fez-me chegar esta dissertação que me parece muito oportuna para o momento que passa - período eleitoral.
Frei Bento Domingues – 20090920
"Será sempre despropositado tentar extrair dos Evangelhos programas para a construção da vida social, cultural e política:
1.Os católicos portugueses celebram, hoje, a Eucaristia em contexto de campanha eleitoral. Espero que ninguém ceda à tentação de a utilizar para apoiar ou atacar, directa ou indirectamente, qualquer dos partidos, seja qual for o motivo. Não porque as expressões religiosas do culto cristão sejam indiferentes ao que se passa na sociedade. A Igreja mantém, no Baptismo, o chamado rito do Ephphatha, inspirado no Evangelho de S. Marcos (7, 31-37). Conta-se que, certo dia, apresentaram a Jesus um surdo tartamudo. Ele curou-o, abrindo-lhe os ouvidos e desprendendo-lhe a língua. Não consta, no entanto, que Jesus tenha fundado qualquer instituição para tratamento dos ouvidos ou da fala. Não veio substituir os caminhos das ciências, das artes ou das políticas, tarefa da investigação e da criatividade humanas. Será sempre despropositado tentar extrair dos Evangelhos programas para a construção da vida social, cultural e política.Nesse gesto simbólico, exprime-se, no entanto, algo de essencial: não se pode ser cristão e manter-se surdo e mudo perante o que acontece no coração da nossa actualidade. Não porque os cristãos disponham de receitas, prontas a servir, para salvar a natureza ou para alterar o curso da história humana. Como dizia Tomás de Aquino, "a graça não substitui a natureza". A Liturgia, enquanto acontecimento simbólico, é polivalente e ambígua nas suas múltiplas significações, segundo os diferentes participantes. Como respiração da vida, ninguém deve tentar controlar o modo como a celebração é interpretada por aqueles que nela participam de forma activa. Servir-se da Missa para inculcar uma ideologia não é só um abuso intolerável. É impedir que ela seja o grande apelo à conversão de todos pelos caminhos só de Deus conhecidos.
2. A narrativa deste domingo, tirada também do Evangelho de S. Marcos (9, 33-37), é especialmente cruel para os dirigentes da Igreja e isto não diz respeito, apenas, à Igreja dos começos. Como realça a Bíblia de Jerusalém, desde o capítulo quarto até ao capítulo dez, não há meio de os discípulos compreenderem o desígnio e as intervenções de Jesus. É, pelo menos, o que o narrador repete oito vezes, observando que o desentendimento chegara a tal ponto que os discípulos já tinham medo de o interrogar. Como se lê na Missa de hoje, foi, então, o próprio Jesus, quando chegaram a Cafarnaum e já estavam em casa, que teve a iniciativa de lhes perguntar: "Que discutíeis vós pelo caminho?" Não teve resposta, pois andavam a discutir acerca de qual deles era o mais importante. Aproveitou, então, para uma reunião muito frontal e rematou: "Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último, isto é, aquele que se coloca ao serviço de todos."Pelo que vem a seguir, a reunião não deu grande resultado. As discussões continuaram e a questão de fundo era esta: que temos nós a ganhar com este aventureiro, pronto a cair na boca do lobo ao ir para Jerusalém?É verdade que Pedro já tinha tentado chamá-lo à razão, mas foi repreendido e envergonhado perante os outros: "Arreda-te de mim, Satanás, porque não pensas as coisas de Deus, mas dos homens." Jesus aproveitou para radicalizar a sua posição. "Chamando a si a multidão, juntamente com os discípulos, disse-lhes: 'Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Na verdade, quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, há-de salvá-la. Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida? Ou que pode o homem dar em troca da sua vida?'"Esta conversa não agradou. Quando se viram confrontados com a posição de Jesus acerca da incompatibilidade do apego à riqueza com a entrada no Reino de Deus, sentiram a urgência de colocar tudo em pratos limpos. Tiago e João, filhos de Zebedeu, que tinham abandonado a empresa do pai para seguir Jesus, foram ter com Ele e disseram-lhe: "Mestre, concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda." Os outros, julgando-se preteridos, começaram a indignar-se. Para Jesus, esse carreirismo não pode ter lugar na sua Igreja: "Aqueles que vemos governar as nações dominam-nas e os seus grandes tiranizam-nas. Entre vós não deverá ser assim: ao contrário, aquele que, entre vós, quiser ser grande seja o vosso servidor e aquele que quiser ser o primeiro, entre vós, seja o servo de todos. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos" (cf. Mc 10).
3. É consensual que Jesus não encarregou a Igreja de fazer um partido político: "Dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César." As comunidades cristãs, na sua diversidade e no seu interno pluralismo político, para terem algo de original a dizer, terão de não reproduzir, no seu interior, o que criticam na política de dominação. A vida não acaba onde começa o Reino de Deus, como pensava Nietzsche. Pelo contrário, é intensificada ao transformar-se. Ganha quem perde no que faz pela alegria dos outros."

sábado, 19 de setembro de 2009

TVI - A Minha Leitura (José Niza)

Fui director de programas da RTP e depois seu administrador. E garanto-vos que, se alguma vez algum apresentador ou jornalista desse uma entrevista a chamar-me "estúpido", a primeira coisa que aconteceria seria o cancelamento imediato do seu programa, independentemente de haver ou não eleições em curso.
Por isso me parece incompreensível que, embora rios de tinta já se tenham escrito sobre o cancelamento do jornal nacional que Manuela Moura Guedes (MMG) apresentava na TVI, todos os analistas e comentadores tenham ignorado a explosiva e provocatória entrevista que MMG deu ao Diário de Notícias dias antes de a administração da TVI lhe ter acabado com o programa.
Em meu entender essa entrevista, realizada com antecedência para ser publicada no dia do regresso de MMG com o seu jornal nacional, foi a gota de água que precipitou a decisão da TVI. É que, o seu conteúdo, de tão explosivo e provocatório que era, começou a ser divulgado dias antes. E se chegou ao meu conhecimento, mais cedo terá chegado à administração da TVI.
Nessa entrevista MMG chama "estúpidos" aos seus superiores. Aliás, as palavras "estúpidos" e "estupidez" aparecem várias vezes sempre que MMG se refere à administração.
É um documento que merece ser analisado, não somente do ângulo jornalístico, mas sobretudo do ponto de vista comportamental. É uma entrevista de uma pessoa claramente perturbada, convicta de que é a maior ("Eu sou a Manuela Moura Guedes"!) e que se sente perseguida por toda a gente. (Em psiquiatria esse tipo de fenómenos são conhecidos por "ideias delirantes", de grandeza ou de perseguição).
MMG diz-se perseguida pela administração da TVI; afirma que os accionistas da PRISA são "ignorantes"; considera-se "um alvo a abater"; acusa José Alberto de Carvalho, José Rodrigues dos Santos e Judite de Sousa de fazerem "fretes ao governo" e de serem "cobardes"; acusa o Sindicato dos Jornalistas de pessoas que "nunca fizeram a ponta de um corno na vida"; diz que o programa da RTP 2, Clube de Jornalistas, é uma "porcaria"; provoca a ERC (Entidade Reguladora da Comunicação Social); arrasa Miguel Sousa Tavares e Pacheco Pereira, etc.
E quando o entrevistador lhe pergunta se um pivô de telejornal não deve ser "imparcial", "equidistante", "ponderado", ela responde: "Então metam lá uma boneca insuflável"!
Como é que a uma pessoa que assim "pensa" e assim se comporta, pode ser dado tempo de antena em qualquer televisão minimamente responsável?
Ao contrário do que alguns pretendem fazer crer - e como sublinhou Mário Soares - esta questão não tem nada a ver com liberdade de imprensa ou com a falta dela. Trata-se, simplesmente, de um acto e de uma imperativa decisão administrativa, e de bom senso democrático.
Como é que alguém, ou algum programa, a coberto da liberdade de imprensa, pode impunemente acusar, sem provas, pessoas inocentes? É que a liberdade de imprensa não é um valor absoluto, tem os seus limites, implica também responsabilidades. E quando se pisa esse risco, está tudo caldeirado.
Há, no entanto, uma coisa que falta: uma explicação totalmente clara e convincente por parte da administração da TVI, que ainda não foi dada.Vale também a pena considerar os posicionamentos político-partidários de MMG e do seu marido.
J. E. Moniz tem, desde Mário Soares, um ódio visceral ao PS. Sei do que falo. MMG foi deputada do CDS na AR.
Até aqui, nada de especialmente especial. O que já não está bem - e é criminoso - é que ambos se sirvam de um telejornal para impunemente acusarem pessoas inocentes, sem quaisquer provas, instilando insinuações e induzindo suspeições.
Ainda mais reles é o miserável aproveitamento partidário que, a começar no PSD e em M. F. Leite, e a acabar em Louçã e no BE, está a ser feito. Estes líderes políticos, tal como Paulo Portas e Jerónimo de Sousa, sabem muito bem, que nem Sócrates nem o governo tiveram qualquer influência no caso TVI. Eles sabem isto. Mas Salazar dizia: "O que parece, é"!E eles aprenderam.
- 1984. Eu era, então, administrador da RTP. Um dia a minha secretária disse-me que uma das apresentadoras tinha urgência em falar comigo: - "Venho pedir-lhe se me deixa ir para a informação, quero ser jornalista"! Perguntei-lhe se tinha algum curso de jornalismo. Não tinha. Perguntei-lhe se, ao menos, tinha alguma experiência jornalística, num jornal, numa rádio... Não tinha. "O que eu quero é ser jornalista"! Percebi que estava perante uma pessoa tão determinada quanto ignorante. E disse-lhe: "Vá falar com o director de informação; se ele a aceitar, eu passo-lhe a guia de marcha e deixo-a ir". A magricelas conseguiu. Dias depois, na primeira entrevista que fez - no caso, ao presidente do Sporting, João Rocha - a peixeirada foi tão grande que ficou de castigo e sem microfone uma data de tempo.
P.S.A jovem apresentadora chamava-se Manuela Moura Guedes.
E se eu soubesse o que sei hoje...
Ribatejo - Portugal

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Conversas interrompidas


Frei Bento Domingues O.P. – 20090913
1. Quando se chega à minha idade, a morte está sempre a interromper conversas ou a impedir outras que andavam adiadas. Almocei com Raúl Solnado no dia anterior à sua entrada no hospital com a promessa de continuarmos os nossos encontros. Em Junho, durante um lanche em sua casa, foi a uma estante, retirou um livro de colaboração – não me lembro do título – e apontou-me um pequeno texto assinado por ele. Estava, ali, o essencial de tudo. Pedi-lhe para o fotocopiar e dar a conhecer. Disseram-me que foi colocado em cima do caixão e teria sido lido, por alguém da RTP, durante o percurso para o cemitério.
Não posso deixar de o reproduzir na primeira crónica depois das férias:"Numa das vezes que fui à Expo, em Lisboa, descobri, estranhamente, uma pequena sala completamente despojada, apenas com meia dúzia de bancos corridos. Nada mais tinha. Não existia ali qualquer sinal religioso e por essa razão pensei que aquele espaço se tratava de um templo grandioso."Quase como um espanto, senti uma sensação que nunca sentira antes e, de repente, uma vontade de rezar não sei a quem ou a quê. Sentei-me num daqueles bancos, fechei os olhos, apertei as mãos, entrelacei os dedos e comecei a sentir uma emoção rara, um silêncio absoluto. Tudo o que pensava só poderia ser trazido por um Deus que ali deveria viver e que me envolvia no meu corpo amolecido. O meu pensamento aquietou-se naquele pasmo deslumbrante, naquela serenidade, naquela paz."Quando os meus olhos se abriram, aquele Deus tinha desaparecido em qualquer canto que só Ele conhece, um canto que nunca ninguém conheceu e quando saí daquela porta, corri para a beira do rio para dar um grito de gratidão à minha alma, e sorri para o Universo."Aquela vírgula de tempo foi o mais belo minuto de silêncio que iluminou a minha vida e fez com que eu me reencontrasse. Resta-me a esperança de que, num tempo que seja breve, me volte a acontecer. Que esse meu Deus assim queira." (Raúl Solnado, Um Vazio no Tempo, 2007).
2. Há muitos anos que não consigo separar-me da obra Os Degraus do Parnaso, de M. S. Lourenço. É, para mim, uma fonte inesgotável. Na sua harmonia literária e filosófica – fruto de uma "fecundação cruzada" – cumpre, de forma admirável, a tarefa de nos levar, pela sua perfeição, até à fronteira do inexprimível e à incapacidade de nos rendermos à crescente "indústria da cultura" e às suas inundações de lixo.Nesses textos não há, apenas, uma fecundação cruzada de criação literária e de presença filosófica actuante. A ligação entre religião e literatura é omnipresente: sustenta que "o artista verdadeiro é aquele que alcançou o conhecimento verdadeiro, o qual consiste na percepção da realidade sensível e na intuição da realidade inexprimível. A aura que rodeia o artista verdadeiro é um efeito do Sopro divino".
Depois de marcar a diferença entre o processo científico e o literário na procura da verdade e de concluir pelo valor cognitivo da experiência simbólica da obra de arte, enfrenta a questão das fronteiras entre a literatura e a religião: "Tenho defendido a ideia de que o culto religioso não existe incondicionalmente e que a expressão da experiência religiosa é condicionada pela formulação literária que a descreve, uma vez que esta é o veículo da asserção religiosa. O passo de S. João segundo o qual o princípio é o Logos é assim interpretável como exprimindo a ideia segundo a qual o Logos, a fórmula, é a linguagem universal e, portanto também, a da religião e do seu culto. Assim, o problema da verdade da religião reconduz-se ao problema da verdade das fórmulas da literatura subjacente. Uma doutrina religiosa é apenas tão verdadeira quanto o for a fórmula literária que a transmite."A última vez que falei com M. Lourenço ao telefone, não lhe exprimi, apenas, a minha admiração pela sua "cultura da subtileza", mas também o desejo de a ver contrariar, de forma activa, a mediocridade da nossa cultura católica. Era uma conversa adiada para quando me mandasse a obra completa, em processo de publicação na Assírio & Alvim. Agora, espero que o Sopro divino que o habitava não me abandone até ao novo encontro porque, como escreveu, a "ressurreição é uma ideia justa".
Nota do Bloger: É tudo muito complicado! A última frase do texto de M.Lourenço é muito bonita , diria mesmo sedutora, porque ela corresponde à satisfação das aspirações mais básicas da natureza humana, e não só: a sobrevivência, a luta pela vida, ("strugle for life", onde é que já li isto?), a vida eterna!

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

TESTEMUNHO DE UM DOS NOSSOS

Li e chocou-me o comentário de um "anónimo" sobre a vida no Seminário de Beja, feito em Abril-08 no NOCA
Chocou-me, não o que está escrito, que em termos gerais, é verdadeiro, mas a animosidade que é colocada no texto.
Não há nada de positivo naquela educação, austera sem dúvida?
Para mim há muito mais positivo que negativo, começo por enumerar os pontos positivos que, tenho a certeza, não o foram só para mim:
-Sou de origem camponesa, os meus pais eram pequenos proprietários rurais com propriedades que os colocavam nos 50% em melhor situação económica na aldeia; apesar disso e dada a deficiência de estruturas educativas na província, só era possível estudar na cidade e isso ficava incomportavelmente caro, eu teria ficado na aldeia ou emigrado para França, como aconteceu com a generalidade dos restantes
- Valeu-me o seminário que me acolheu como era sem convivência social, sem saber como comportar-me até com os meus colegas do seminário e com muita dedicação, austeridade, alguma compreensão, fez de mim o homem de que vim a gostar e me preparou para os outros também poderem gostar de mim, me ajudarem a vencer na vida e na família; se hoje sou um homem de algum sucesso devo-o em 1º lugar aos meus Pais que sempre me alertaram para as dificuldades da vida e depois ao Seminário que com a educação espartana, me preparou para vencer nela.
- Aqueles horários eram violentos? Eram sim senhor
- Estavam errados? Penso que não!
Um Padre tem de ser uma pessoa com carácter, com personalidade e cultura acima da media aparte o entusiasmo e dedicação que a sua missão exige e não podemos esquecer que no seminário se formavam Padres, mesmo assim sabemos que com muita frequência não deu bons resultados. Não é ainda hoje célebre a educação espartana? E a inglesa?
- É com alguma vaidade que ainda hoje consigo algum relevo devido aos conhecimentos adquiridos no seminário e penso que também isso acontecerá com outros ex-frequentadores do seminário. Não tenho qualquer relutância, como tinha no início, em dizer que andei no Seminário e em geral as pessoas apreciam-me por isso e sabem que sou conhecedor em termos culturais.
- Como já mencionei, a educação ministrada no Seminário ajudou-me a ter conhecimentos, capacidade de trabalho, espírito de sacrifício e algum desenvolvimento da inteligência que foram cruciais para a minha vida,
-FICO PORTANTO MUITO PENSATIVO QUANDO VEJO PESSOAS QUE SÓ CRITICAM A EDUCAÇÃO RECEBIDA E QUASE DE BORLA-
Será que eles não vêem nada disto ou não receberam os mesmos ensinamentos?
- Penso que a resposta e outra, também se passou comigo.
-EI-LA:
- O QUE DESESPERAVA UM EX-SEMINARISTA ERA A DIFICULDADE E O COMPLEXO DA SUA INSERÇÃO NA SOCIEDADE.
- Pouco depois de sair do seminário eu não era capaz de olhar uma pessoa de frente: baixava os olhos.
-Quando precisava de atravessar a aldeia, era capaz de dar uma volta por fora para não encontrar pessoas, alem da educação do Seminário, vivi sempre numa quinta, isolado portanto.
-Muitas vezes dei bofetadas na minha cara, revoltando-me por não ser capaz de olhar de frente para as outras pessoas.
Há porém uma coisa que nunca aconteceu comigo: - revoltar-me contra quem me deu esta educação.
-- Penso, sem querer ser ofensivo, apenas ajudar, que a razão básica de tanta crítica está em nunca terem conseguido ENFRENTAR esta situação, aproveitando o bom e muito bom que tem e eliminar o negativo, especialmente os complexos que também tive e se calhar ainda tenho alguns.
- Para terminar considero que os SUPERIORES, P. Almeida, Con. Gonçalves e milhentos outros não eram más pessoas, apenas tiveram a mesma formação que nós e portanto com os mesmos defeitos e virtudes.
Por acaso já pensaram como agiriam se tivessem estado na mesma época, no mesmo lugar?
- Amigos, é a 1ª vez que escrevo uma mensagem destas e apesar de já reformado, faço-o com prazer enquanto estou de férias no Algarve.
MATA

Nota do Bloger: - O Zé Mata, (José Martins Mata), o "Matita" na sua aldeia de ENGUIAS, é um homem de sucesso no campo empresarial, sendo a sua coroa de glória a Empresa "ORBIVENDAS", especializada em importação, comercialização e exportação de equipamentos de limpezas domésticas e industriais, com sede em Loures e implantada em todo o território nacional e, em breve com ramificações para os PALOPs, com Angola à cabeça, para onde já está a exportar.

Este testemunho do Zé Mata traz "à colacção", como diria um causídico, o fenómeno dos "talibãs": eles odeiam tudo o que não seja ou respeite "alá e o seu profeta" e isso é inaceitável. Eu encerraria este post com a seguinte máxima : "para não amar uma coisa, não é necessário odiá-la!" Façam o favor de ser felizes! - dizia o Solnado.