domingo, 27 de abril de 2008

1948 (Continuação) -A gestão do tempo e do silêncio

Permito-me transcrever o horário apresentado por um anónimo(?) no comentário que fez abaixo, pela justeza do mesmo. Dele se deduz o rigor com que os tempos eram geridos. Toda a crítica e análise que se fizer agora tem de ter em conta os tempos que decorriam, os métodos e os objectivos: as malhas da rede eram muito apertadas, para que o "peixe" considerado de menor qualidade ou inadaptado se revelasse em toda a sua plenitude e em tempo útil.
O apêlo ao desenvolvimento místico dos candidatos era uma constante e para isso era utilizada a arma mais disponível e incruenta: o silêncio!
A gestão do silêncio merece um tratamente especial e será objecto de um post específico.
Este horário que vigorava diariamente cinco dias por semana, sofrendo algum alívio aos sábados e domingos, dias em que havia actividades menos intensivas respeitante ao estudo, que no entanto não era descurado, mas incidindo mais na formação religiosa, sobretudo quando havia retiro mensal, (meio dia sem falar uns com os outros, ouvindo palestras adequadas).

06H30 - Levantar,tomar banho,lavar os dentes vestir-se e ir para a formatura
07H00 - Orações,meditação e arrumar o quarto.
08H30 - Pequeno almoço
08H45 - Estudo
09H30 - Recreio
09H50 - Estudo
10H00 - Aulas
10H55 - Recreio
11H05 - Aulas
12H00 - Almoço,visita à capela e recreio
13H30 - Estudo
14H30 - Recreio
14H50 - Estudo
15H30 - Aulas
16H25 - Recreio
16H35 - Aulas
17H30 - Estudo
18H30 - Terço e Bênção do Santíssimo na Capela
19H30 - Jantar e recreio
20H45 - Estudo
21H45 - Orações da Noite e Meditação
22H30 - Lavagem dos pés,dentes, deitar e silêncio

sábado, 26 de abril de 2008

PSD - Um saco cheio de gatos assanhados

Sobressaem algumas figuras curiosas, a saber:
Regressa o "menino guerreiro" para a incubadoura acarinhado por uma "vèlhinha guerreira", lebre de Rui Rio, (segundo Vasco Polido), pronta para dar umas bofetadas nos figurões e tambem, claro, no menino da incubadoura.
Na Madeira, o "Bocassa", continua a gesticular forte e a esgaravatar, deitando terra ao ar, qual toiro enraivecido, mas sem capacidade de luta por excesso de adversários.
Assim vai a democracia portuguesa no século XXI, trinta e quatro anos depois de ABRIL!

sexta-feira, 25 de abril de 2008

O Amigo Ralha Arranha apresenta-se

Para o meu amigo Campos

Dizem-me que vieram umas bicadas dos lado do mar, mais propriamente de Odemira ou S. Teotónio. Impossível,reagi. Dessas bandas, só a brisa suave do mar que arrefecia o calor da noite e nos fazia ficar noite fora, nas soleiras das casas, a contar histórias de guerrilhas , de almas do outro mundo, de gambosinos que fugiam dos sacos ou nem chegavam a entrar - Salvada 1955. Para quem não sabe onde fica, Beja fica ao pé de Salvada. Depois, tudo mudou :levantar às seis, orações da manhã, meditação - que era ouvir um senhor a dizer qualquer coisa, normalmente a ameaçar(aterrorizar) com o pós mortem, de vez em quando, menos, a vender felicidade abstracta para os puros...mas daquelas bandas, Odemira, que ficava longe como o raio, veio o Campos, o Àguas, o Reis, talvez outros, que a memória não reteve. Companheiros duma Jornada que foi a melhor, porque a possível nas circunstâncias de dependência inerente a cada um de nós.
Não quero saber das bicadas, só do autor que encontrei anos mais tarde na cantina da cidade universitária, de carmenghia ( um wolksvagen desportivo, dois lugares ) não muito do agrado de algumas meninas que preferiam o autocarro...não fosse o condutor inexperiente e se enganasse nas mudanças . Depois conto a história do filho do senhor Gulbenkian,obviamente mais astuto, que resolveu o problema da pequenez do carro de forma imaginativa.
continua...
silvestre Rosa Ralha Aranha

PS -Ficamos à espera da continuação para breve.
Podes enviar directamente para "ancampos@netcabo.pt"
Um abraço amigo do Noca

O Menino de Abril

quarta-feira, 23 de abril de 2008

1948 (Continuação) – Entrada na Rotina

Após a instalação e arrumo dos pertences, teve imediatamente início uma rotina que constituía a vida disciplinada e austera dum internato escolar confessional, em que os alunos não eram apenas instruendos comuns, mas sim candidatos ao sacerdócio – uma classe de pessoas (homens) preparados para ministrar o magistério da Igreja Católica e exercer o “munus” litúrgico, eles serão os “LITURGOS” de uma Religião monoteísta e milenar que se reclama como única detentora da verdade para conseguir a salvação da humanidade, daí a sua catolicidade ou universalidade.
Para conseguir os objectivos almejados, é evidente que pressupunha um longo período de preparação intelectual, física e cultural, que decorria por doze anos, no mínimo, desde que as provas prestadas anualmente fossem positivas e a apreciações oportunas e periódicas do colégio episcopal, (de nomeação episcopal), fossem favoráveis.
O Seminário de Beja não fugia a estas exigências, que obedeciam a directivas muito claras dos centros de decisão a partir de Roma.
A formação dos alunos era orientada na prossecução de um grande objectivo, a formação integral do aluno, considerada sob dois aspectos: o físico e o intelectual ou espiritual, e este subdividido em cultural, (ciências humanas ou humanísticas), e religioso, (histórico-teológico-místico).
Todos estes aspectos do ensino eram moldados por uma disciplina rígida, onde a gestão dos tempos de silêncio e de descompressão, (recreios e actividades lúdicas), desempenhavam um papel fundamental.
Cada dia era preenchido por actividades diversas, bem enquadradas em horários muito rígidos, desde o acordar ao som da sineta, pelas sete horas da manhã, até ao recolher, pelas vinte e uma horas, por chamamento da mesma sineta.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

O Mata regressou da viagem ao Oriente

Olá Companheiro!
Esperamos as notícias do Oriente. Se tiveres alguma imagem que mereça ser conhecida, e queiras partilhá-la conosco, envia-ma que a colocarei no blog.

terça-feira, 1 de abril de 2008

1948 (Continuação) – Chegada e Instalação

Seriam uma dez horas da manhã de um dos primeiros dias de Outubro de 1948, quando finalmente demos entrada no portão da cerca do Seminário. Contornado o cruzeiro então existente frente à escadaria da entrada principal, onde hoje se encontra a estátua do fundador, Bispo D. José do Patrocínio Dias, deparou-se-nos a entrada principal do edifício imponente, embora de linhas sóbrias e a que não prestámos atenção especial.
Fomos recebidos pelo porteiro, o Barão, homem ainda novo, atarracado e bem apessoado, a quem a sorte tinha reservado uma deformação na mão direita. Passada a grande porta, entrámos num átrio quadrangular, dominado ao centro por uma estátua em mármore branco da Senhora de Fátima, naquela postura de acolhimento que se lhe conhece. Mandou-nos o Barão para a sala de espera, no lado esquerdo do átrio. Ali nos acomodámos numas cadeiras austeras, onde eu, na minha estatura de pré adolescente, não conseguia chegar com os pés ao chão: não me senti nada confortável, devo dizer!
Do lado oposto do átrio, simétrica à sala de espera, ficava outra sala, cuja porta era igual e tinha escrito por cima:”Sala dos Professores”. A Eugénia, nossa guia e irmã do Zé Pincho, chamou-nos a atenção para essa sala: olhem é ali que se reúnem os professores para vos darem as notas. Embora não soubéssemos muito bem o que era isso de “notas”, lá concordámos, com uma expressão de admiração: aahh!
Passado algum tempo de espera, para isso se destinava a sala onde estávamos, apareceu um padre, ainda jovem, teria trinta e poucos anos, que mais tarde soube chamar-se Nazário, Padre Nazário, que nos mandou seguí-lo e nos conduziu, atravessando o claustro de corredores muito compridos, a uma escadaria que nos faria chegar às camaratas. Eu fui para a dos “pequenos”. Cada camarata era constituída por uma sala muito grande, ocupada com pequenos cubículos individuais, dispostos em quatro linhas e separados por dois corredores. Cada cubículo, com cerca de 3 X 2,5 m, e paredes com cerca de 2m, dispunha de uma cama, mesa de cabeceira e armário, o essencial para garantir conforto ao seu ocupante, bem como preservar a sua privacidade. Anexo à camarata existiam as instalações sanitárias, muito bem cuidadas e constituídas por lavatórios individuais e cabines de WC e de chuveiro suficientes para o número de utentes atribuídos. Num dos extremos da camarata existia um quarto destinado ao Vigilante, (um padre que vigiava pela disciplina e comportamento dos alunos, durante a sua permanência nas camaratas).